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Veja quais são as prioridades, valores e preocupações dos jornais brasileiros


17/04/2026

Um levantamento feito pela revista eletrônica Consultor Jurídico nos portais dos três jornais impressos mais tradicionais do país (Estadão, Folha e Globo) mostra quais são as maiores preocupações da imprensa brasileira. Os números, colhidos em um período de seis meses*, mostram o quanto prioridades, valores e preocupações dessa imprensa descolaram-se da realidade brasileira.

Exemplos: aos olhos dos jornais, os ministros do Supremo Tribunal Federal — com 8.942 citações** — são seis vezes mais preocupantes do que o “Primeiro Comando da Capital” (PCC), com 693 citações, e o “Comando Vermelho” (614) juntos.

Os dez criminosos mais procurados do Brasil, segundo o Projeto Captura***, do Ministério da Justiça, são mencionados 74 vezes. Isso significa que o ato de comparecer a um evento acadêmico, por exemplo, preocupa mais do que traficar drogas e armas, matar no atacado e no varejo. Na proporção matemática: os 11 ministros preocupam 10.445,95% mais do que os dez piores criminosos do país à solta. Cem vezes mais.

 

A inversão de prioridades é estonteante. As suposições em torno de Alexandre de Moraes, por exemplo, têm importância igual à guerra do Irã ou duas vezes mais do que a guerra na Ucrânia. A ameaça de uma terceira guerra mundial na era atômica importa menos do que a suspeita de que ministros traficaram decisões — o que nenhum jornal demonstrou até agora.

 

O que se ouve x o que houve

Os 11 ministros do STF*** merecem, da parte dos jornais, mais atenção e são mais fiscalizados do que os setores da Saúde ou Educação. Os ministros Alexandre de Moraes (1.794) e Dias Toffoli (1.094) somam 2.888 menções — tijoladas em praticamente todos os textos. Pelo filtro dos jornais, Moraes e Toffoli são 12 vezes mais relevantes do que os 33 ministros do Superior Tribunal de Justiça — incluindo substitutos.

 

“Há algo de errado no controle de qualidade desses jornais”, afirma o ministro Gilmar Mendes (citado 660 vezes). Ele lembra o que costumava repetir o escritor e jornalista Nelson Rodrigues: “O papel do editor é aproveitar o joio e jogar fora o trigo” — e completa: “Esse jornalismo personifica Mário de Andrade, ao dizer que jornalistas publicam o que ouvem e não o que houve”.

Existem diferentes formas consagradas para se medir prioridades e problemas nacionais. O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), por exemplo, mede o Índice de Desenvolvimento Humano de cada país.

O que a ONU leva em conta no seu ranking: Saúde (que engloba saneamento, nutrição, acesso a serviços médicos e expectativa de vida); Educação; e Renda (padrão de vida e capacidade de consumo). Como mostra o levantamento da ConJur, nenhum dos temas elencados pela ONU é prioridade para a imprensa****.

 

O que mais preocupa os brasileiros

Para conferir os conflitos mais recorrentes do Brasil, por exemplo, existe a régua do sistema judiciário. A partir das demandas judicializadas tem-se uma ideia dos problemas que mais afligem os cidadãos e cidadãs. Por essa ótica, sabe-se: o que mais angustia os brasileiros, em primeiro lugar, são as relações de consumo.

Em segundo lugar, os conflitos nas relações de trabalho. A criminalidade vem em seguida. Não é muito comum ver-se manchetes sobre esses temas. Mas ao menos metade das notícias escolhidas pelos editores relaciona-se a supostos atos de corrupção.

O volume de processos relacionados ao bloco de crimes por corrupção é de apenas 0,03% — mas o item responde por quase metade das manchetes. A expressão é mencionada 1.329 vezes, o que é pouco. Mas tem uma explicação.

 

Da mesma forma que “tráfico de influência” (expressão citada 32 vezes), os ataques ao STF não são frontais. O leitor é induzido a crer que os ministros são corruptos e traficam influência, mas essas expressões não são usadas. Falta de provas é um dos motivos.

O nome da jornalista Malu Gaspar é mencionado 289 vezes — o que a coloca à frente das citações a “saneamento básico”, “conflito de interesses”, a todos os ministros do Superior Tribunal de Justiça e personagens como os dez mais procurados do Projeto Captura, do Ministério da Justiça.

 

O triunfo da emoção sobre a razão

Entre o que é importante e o que é interessante, o levantamento deste site indica que a emoção se sobrepõe à razão. Na mistura do entretenimento com fatos, vence o trivial.

A técnica de fantasiar notícias com vestes de entretenimento tem um nome técnico: Infotenimento (infotainment, no original). É quando o critério de noticiabilidade deixa de ser a relevância e passa a ser o potencial de diversão ou choque.

A espetacularização da notícia consiste em converter supostos fatos em uma narrativa dramática, com mocinhos, vilões e ganchos emocionais. Dar ao espectador a sensação de um filme de ação. Claro que o que se ganha em audiência perde-se em veracidade, já que o objetivo não é informar, mas emocionar.

Fácil concluir, pelos filtros da ONU e do Conselho Nacional de Justiça, que a imprensa força a mão para emocionar seu público com pretensos sentimentos morais. Sugere-se que a realidade é que se adapte às notícias. Em português claro: em busca de protagonismo e holofotes, o jornalismo brasileiro tradicional engana seu público.

 

 

Imagem invertida

O critério utilizado pela ConJur não é inédito. Nasceu nos Estados Unidos no início do século XX. Cientistas políticos sistematizaram a técnica de contar palavras e categorias em discursos dos presidentes do país para medir suas prioridades, seus valores e suas preocupações.

O divórcio entre o que a imprensa se propõe a esclarecer e o que se publica é total. Desde que passou a valorizar mais suposições, ilações, desconfianças e suspeitas do que os fatos, iniciou-se a era da insinuação. Para fugir à responsabilização, inventou-se a acusação que não acusa. Induz-se o leitor a concluir que o alvo é criminoso sem que seja preciso fundamentar a imputação.

Para que se configure crime não basta que um ministro seja “flagrado” em um evento acadêmico ou deduzir-se que ele se vendeu por ter pegado carona no jatinho de alguém. É preciso que o “favor” tenha sido pago com um ato de ofício. Ou seja, que tenha havido uma contrapartida.

Os jornalistas, “cientistas sociais”, economistas e quitandeiros que dão aulas de Direito a ministros do STF devem saber que o crime só se configura com a prova do tráfico. Mas a expressão “ato de ofício” foi citada uma única vez nos três jornais em seis meses de notícias em que o mundo parou para tratar disso.

 

Não faça o que eu faço

As contradições parecem não incomodar. Num país cujo drama é o fracasso do ensino, atira-se pedras em eventos jurídicos como se encontros acadêmicos fossem criminosos. Quer-se fazer crer que um ministro possa se vender por uma passagem aérea, hospedagem ou por doses de uísques caros. Ironia: logo os jornalistas e suas empresas que desfrutam desses “favores” regularmente.

Quem sustenta essas “teses” escandalosas são os mesmos profissionais que, nos últimos anos, receberam dinheiro do Banco Master, nos três jornais, e de todas as empreiteiras condenadas na malsinada “lava jato”, no “mensalão” e em todos os escândalos que eles mesmos noticiam.

 

Folha, Globo, Estadão e Valor — com todos os seus CNPJs — sempre espremeram empreiteiras condenadas antes e depois dos eventos que promoveram usando os mesmos ministros que, em seminários alheios, passam à condição de suspeitos.

Não se encontrou uma única menção a jornalistas que vivem de extorquir e chantagear empresários e políticos. Talvez porque, no Brasil, isso não exista. Apenas tentativas de cerceamento da liberdade de expressão da parte dos inimigos da democracia.

Jornais e jornalistas venderem desinformação é tão contraditório quanto o médico que vende doenças em vez da cura. O professor que vende ignorância em vez de conhecimento. Pior: enxergar nos outros a promiscuidade que pratica e da qual vive.

 

Fonte: www.conjur.com.br

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